terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pinceladas

O quarto tem essa coisa sonolenta.

A saudade não é uma coleção de momentos, memórias, conversas...?

Solidão em movimento.
Dançar no meio de estranhos.

EMBALADO versus EMBALAGEM

Reação à gravura do Samuel

Dormência. Mate-me. Dormir. Produzir. Não produzir. Criar. Respeito. Respeito-me. As facas com que corto o tempo, MEU TEMPO, são as mesmas que cortam minha garganta fatigada de nada. Fatigada do mesmo de tudo. Ah, se meu tempo fosse meu e não seu.

Reação à música da Chris

Festa de família. É natal, talvez. É de noite. NÃO! Sou eu que fugi da família, fugi de casa, fugi de todo o mundo procurando todo o mundo. Sou eu buscando na solidão encontrar a mim e ao outro. Quem? Quando? Para. Vive. Vive, apenas. Rilke bem que me avisou que era para acostumar-se com a presença das perguntas, em vez de angustiar-se com a ausência das respostas. Era, disse ele, para admirar a beleza do não-saber, sem muito mais. Já não sei se foi exatamente isso o que ele disse, mas pelo menos foi assim que tudo aquilo se imprimiu em mim. Chega. Movimento, movimento, movimento. Barulho, barulho, barulho. Chega. A festa de família voltou. Tomo um gole de vinho, meio atordoado. Tudo passou muito rápido e agora me vejo outra vez aqui, sem saber exatamente por que. Chega.

Reação à pintura da Mariah

Van Gogh. Casa do Dudu. Cadeiras do Dudu. Silvia, segunda mãe. Eu me sentia - eu me sinto - à vontade para abrir a geladeira. Infância, riso, melhor amigo. Tempo. Diferença e estranheza. Superação da diferença. Distância. Distância com carinho. Um senso absurdo de estar à vontade nessa presença. Não preciso ser nada além do que já sou. Não preciso provar nada.

Amizade é escolha depois que a gente cresce. É preciso fazer esforço pra estar com o outro. Senão nossa vida maluca nos leva a tantas direções diferentes que o encontro se torna difícil. Depois raro. Depois nunca.

Um pequeno menino

Um pequeno menino estava deitado na banheira. Era o primeiro banho no qual, segundo um antigo desejo seu, nem a mãe nem a ama estavam presentes. A fim de atender à ordem da mãe, que vez por outra lhe gritava alguma coisa do quarto contíguo, ele se esfregara ligeiramente com a esponja; então se esticara e deliciava-se com a imobilidade na água quente. A chama do aquecedor a gás zunia regularmente e, nele, o fogo evanescente crepitava. No quarto contíguo estava tudo quieto já havia bastante tempo, talvez a mãe houvesse se afastado.

-- Kafka, F.

Muito barulho

Estou aqui sentado em meu quarto, o quartel general do barulho de toda a casa. Ouço baterem todas as portas, devido ao seu barulho, sou poupado apenas dos passos daqueles que caminham entre elas, ouço ainda a porta do fogão sendo fechada. O pai arromba as portas de meu quarto e o atravessa arrastando a camisola. No aquecedor do quarto contíguo, as brasas estalam, Valli pergunta da antecâmara, bradando palavra por palavra se o chapéu do pai já foi limpo, um ciciar, que me soa muito conhecido, destaca ainda mais o grito da voz que responde. A maçaneta da porta da frente é abaixada fazendo um barulho como uma garganta catarrenta, e a porta continua se abrindo com o canto de uma voz feminina e fecha-se finalmente com um tranco abafado, masculino, que soa como o mais desconsiderado. O pai saiu, agora se inicia o barulho mais suave, mais espargido, mais desesperançado, liderado pelas vozes dos dois canários. Mesmo antes eu já pensara nisso, com os canarinhos volta a me ocorrer se não poderia abrir uma pequena fresta da porta, entrar no quarto contíguo me esgueirando como uma cobra e pedir então, assim no chão, silêncio às minhas irmãs e sua ama.

-- Kafka, F.