segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Querida Yulong

Você vai bem? Desculpe por não ter escrito antes. Não há motivo para isso, é só que tenho muito a dizer e não sei por onde começar. Por favor me desculpe. 
Já é tarde demais para lhe implorar que perdoe o meu erro terrível e irreversível, mas eu ainda quero lhe dizer: querida Yulong, eu sinto muito!
Você me fez duas perguntas na sua carta: "por que você não quer ver o seu pai" e "o que a faz pensar em desenhar uma mosca e por que foi que a fez tão bonita".
Querida Yulong, essas duas perguntas são muito, muito dolorosas para mim, mas vou tentar responder.
Qual é a menina que não ama seu pai? Um pai é uma grande árvore abrigando a família, as vigas que sustentam uma casa, o guardião de sua mulher e de seus filhos. Mas não amo meu pai - eu o odeio.
Na véspera do Ano-Novo do ano em que fiz onze anos, levante bem cedo e, inexplicavelmente, estava sangrando. Fiquei tão assustada que me pus a chorar. A minha mãe, que veio ter comigo quando me ouviu, disse: "Hougxue, você cresceu". Ninguém, nem mesmo ele, tinha me falado sobre coisas de mulher antes. Naquele dia, mamãe me deu uns conselhos básicos sobre como lidar com o meu sangramento, mas não explicou mais nada. Fiquei entusiasmada: tinha me tornado mulher! Saí correndo pelo quintal, pulando e dançando durante três horas. Até esqueci do almoço.
Um dia, em fevereiro, estava nevando muito e mamãe tinha saído para visiar uma vizinha. Meu pai tinha vindo da base militar, para uma das suas visitas. Ele me disse: "Sua mãe diz que você cresceu. Vamos, tire a roupa para o papai ver se é verdade".
Eu não sabia o que ele queria ver, e estava muito frio - eu não queria tirar a roupa.
"Rápido! O papai ajuda!", disse ele, tirando-me a roupa com destreza. Ele, que normalmente tinha os movimentos lentos, estava totalmente diferente. Começou a passar as mãos pelo meu corpo inteiro, perguntando o tempo todo: "Esses mamilozinhos já incharam? É daqui que o sangue vem? Esses lábios querem beijar o papai? é gostoso quando o papai passa a mão aqui, assim?".
Eu me sentia morta de vergonha. Pelo que me lembrava, nunca tinha estado nua na frente de ninguém, exceto nos banhos públicos separados. Meu pai notou que eu estava tremendo. Disse-me que não tivesse medo e me preveniu para não contar nada à mamãe. "Sua mãe jamais gostou de você", disse. "Se ela descobrir que eu amo você tanto assim, vai querer saber ainda menos de você."
Essa foi a minha primeira "experiência de mulher". Depois, tive uma náusea muito forte.
A partir de então, bastava que minha mãe não estivesse na sala - ainda que estivesse só na cozinha, cozinhando, ou no banheiro - para que meu pai me prensasse atrás da porta e me alisasse inteira. Fui ficando com um medo cada vez maior desse "amor".
Mais tarde ele foi transferido para outra base militar. Minha mãe não podia ir junto por causa do emprego dela. E disse que tinha se esgotado criando a mim e ao meu irmão e que queria que meu pai cumprisse suas responsabilidade por um tempo. Assim, levou-nos para morar com ele.
Eu tinha caído na toca do lobo.
A partir do dia em que minha mãe foi embora, toda tarde meu pai se enfiava na minha cama enquanto eu descansava. Ocupávamos um aposento num dormitório coletivo e ele usava a desculpa de que meu irmãozinho não gostava de cochilar à tarde para trancar a porta e deixá-lo do lado de fora.
Nos primeiros dias, só passava as mãos pelo meu corpo. Depois começou a forçar a língua dentro da minha boca. Aí começou a me cutucar com a coisa dura na parte inferior do seu corpo. Vinha para a minha cama, já sem ligar se era dia ou noite. Usava as mãos para me abrir as pernas e me molestar. Até enfiava os dedos dentro de mim. 
Naquela altura tinha parado de fingir que era "amor paterno". Ameaçava-me, dizendo que, se eu contasse para alguém, seria criticada em público e teria que desfilar pelas ruas com palha na cabeça, porque eu já era o que chamavam de "um sapato usado".
Meu corpo, que ganhava formas rapidamente, o deixava cada vez mais excitado, enquanto eu me sentia mais e mais aterrorizada. Pus um cadeado na porta do quarto, mas ele não se importava de acordar todos os vizinhos e batia até que eu abrisse. Às vezes enganava as outras pessoas no dormitório e elas o ajudavam a forçar a minha porta, ou então dizia que precisava entrar pela janela para pegar alguma coisa porque eu tinha o sono muito pesado. Outras vezes era meu irmão quem o ajudava, sem entender o que fazia.Assim, trancasse eu a porta ou não, ele entrava no meu quarto, em plena vista de todos.
Quando ouvia as batidas, eu com frequência ficava paralisada de medo e me enroscava tremendo embaixo do acolchoado. Os vizinhos me diziam: "Você estava dormindo como uma morta. O coitado do seu pai teve que entrar pela janela para pegar as coisas dele!".
Eu não ousava dormir no meu quarto, não ousava ficar sozinha de maneira alguma. Meu pai percebeu que eu estava sempre encontrando pretextos para sair e criou a regra de que eu tinha que estar de volta na hora do almoço, todo dia. Mas era comum eu adormecer antes mesmo de terminar de comer: ele estava pondo remédio para dormir na minha comida. Eu não tinha como me proteger.
Muitas vezes pensei em me matar, mas não tive coragem de abandonar meu irmãozinho, que não teria ninguém a quem se voltar. Comecei a ficar cada vez mais magra, até que adoeci gravemente.
Na primeira vez em que fui internada no hospital militar, a enfermeira  de plantão disse ao médico, dr. Zhong, que eu tinha o sono muito perturbado. Acordava assustada ao mais leve ruído O dr Zhong, que não conhecia os fatos, disse que era por causa da minha febre alta.
Mas, mesmo enquanto eu estava assim doente, meu pai vinha ao hospital e se aproveitava de mim, que estava com um tubo na veia e sem poder me mexer. uma vez, quando o vi entrando no meu quarto, comecei a gritar descontroladamente, mas meu pai simplesmente disse à enfermeira - que viera correndo - que eu tinha muito mau gênio. Naquela primeira vez só passei duas semanas no hospital. Quando voltei para casa, encontrei meu irmão com um machucado na cabeça e manchas de sangue no casaco. Contou que o papai estivera de péssimo humor enquanto estive no hospital e o surrava ao menos pretexto. Naquele dia o animal doentio que era o meu pai apertou-se enlouquecido contra o meu corpo, ainda desesperadamente frágil e fraco, sussurrando que tinha morrido de saudade de mim!
Não pude conter o choro. Aquele era o meu pai? Tinha tido filhos só para satisfazer seus desejos animalescos? Dera-me a vida para quê?
Minha experiência no hospital tinha me mostrado um jeito de continuar vivendo. Injeções, comprimidos e exames de sangue eram preferíveis a viver com o meu pai. Assim, comecei a me ferir repetidamente. No inverno, encharcava-me de água fria e saía para o gelo e a neve. No outono, comia comida estragada. Uma vez, em desespero, estendi o braço embaixo de um pedaço de ferro que estava caindo, para cortar a mão esquerda na altura do pulso. (Não fosse por um pedaço de madeira macia embaixo, eu certamente teria perdido a mão.) Nessa ocasião, ganhei sessenta noites inteiras de segurança. Entre ferimentos que eu mesma me causava e os remédios, fui ficando aflitivamente magra.
Mais de dois anos mais tarde, minha mãe conseguiu uma transferência no emprego e veio morar conosco. A sua chegada não afetou o desejo obsceno que meu sentia por mim. Disse que o corpo dela estava velho e murcho e que eu era a concubina dele. Minha mãe não parecia notar a situação, até que um dia, no final de fevereiro, quando meu pai estava me batendo porque eu não tinha lhe levado alguma coisa que ele queria, gritei com ele pela primeira vez na vida, dividida entre mágoa e raiva: "O que você é? Bate em todo mundo quando tem vontade, molesta qualquer um quando quer!"
Minha mãe, que assistia à cena, perguntou o que eu queria dizer com aquilo. Assim que abri a boca, meu pai, encarando-me furioso, disse: "Não diga absurdos!".
Eu não aguentava mais e contei a verdade à minha mãe. Vi que ela ficou terrivelmente perturbada. Mas, poucas horas depois, a minha "sensata" mãe me disse: "Pela segurança da família toda, você vai ter que suportar isso. Caso contrário, o que é que nós todos vamos fazer?".
Minhas esperanças foram completamente destruídas. Minha própria mãe me dizia que tolerasse os abusos de meu pai, marido dela. Onde estava a justiça disso?
Naquela noite minha temperatura chegou a quarenta graus. Fui novamente trazida para o hospital, onde continua até agora. Desta vez não tive que fazer nada para provocar a doença. Simplesmente desmaiei, porque tinha tido um colapso cardíaco. Não tenho intenção alguma de voltar para aquele suposto lar.
Querida Yulong, é por isso que não quero ver meu pai. Que espécie de pai e ele? Não digo nada por causa do meu irmãzinho e da minha mãe (ainda que ela não goste de mim). Sem mim, eles ainda são uma família como antes.
Por que foi que desenhei uma mosca e por que foi que a fiz tão bonita?
Porque anseio por uma mãe e um pai de verdade; uma família de verdade, onde eu possa se um criança e chorar nos braços dos meus pais; onde eu possa dormir em segurança na minha cama, em casa; onde mãos carinhosas me afaguem a cabeça para me consolar depois de um pesadelo. Desde a infância mais tenra, nunca tive esse amor. Esperei e ansiei por ele, mas nunca tive, e agora jamais o terei, pois só se tem uma mãe e um pai.
Uma mosquinha me mostrou um dia o toque de mãos carinhosas.
Querida Yulong, não sei o que vou fazer depois disso. Talvez eu a procure para ajudá-la de alguma forma. Posso fazer muitas coisas e não tenho medo de dificuldades, desde que possa dormir em paz. Você se importa se eu for? Escreva e me diga, por favor.
Eu gostaria mesmo de saber como você vai. Continua praticando o seu russo? Você tem remédios? O inverno está chegando de novo, você precisa se cuidar bem.
Espero que me dê uma oportunidade de remediar o mal que causei e fazer alguma coisa por você. Não tenho família, mas espero poder ser uma irmã mais nova para você.
Desejo-lhe felicidade e boa saúde!
Sinto Saudade de você.  

Hongxue, 23 de agosto de 1975.


(Cara tirada do Livro "As Boas Mulheres da China", autora XINRAN)

domingo, 14 de fevereiro de 2016

apresentação magnética (do ricardo)

Maravilhoso! Então deixa contar a minha também?

Essa é minha avó, Mathilde, e esse é meu avô, Hamilton. Juntos, eles tiveram quatro filhas: Maria Cristina, Tom, Marisa e Tereza. A Maria Cristina teve dois filhos, a Maria, que teve a Laura, e o Marcos. O Marcos, depois de dez anos de casado, se separou e mandou um e-mail para a toda a família contando que era gay, e ficou tudo bem. O Tom era gay. Eu não tenho muitas imagens dele na minha cabeça, porque ele morreu de Aids quando eu era bem criança, no boom da doença no início dos anos 90. Eu tenho duas imagens dele. Uma sou eu no carro conversível dele, daqueles que abre o capô, passeando pela praia de Copacabana com o vento batendo no rosto. A outra é ele deitado na cama, no quarto do final do corredor da casa da minha avó. Ele já estava mal nessa época, e eu lembro que eu não sabia exatamente o porquê, mas eu não podia chegar muito perto daquele quarto. A Marisa é a minha mãe e teve a Thatyana, minha irmã, que teve a Paula, e eu. Quando eu tinha 22 anos eu escrevi uma carta para os meus pais contando que eu era gay. E a gente ainda tá trabalhando isso. A Teresa teve quatro filhas: a Violeta, a Helena Flor, a Paloma, que teve a Sofia, e a Mariana, que teve a Yasmin e o Caio. Na minha família, todas são mulheres. Os únicos homens, viraram gays. Menos o Caio, que tem quatro anos, mas todo mundo olhou estranho pra ele quando ele pediu uma boneca no último Natal.

cachoeira de São Jorge

um áudio vai tocar;

você vem pro banheiro;

eu entro;

me dispo;

entro na água fraca;

lento;

lento; e

lento.

se um vidro cai no chão, quebra?

Esse ano, pela primeira vez, meu pai caiu. Caiu mesmo, fisicamente, eu digo. Ele descobriu um problema no menisco e não pode mais correr. Era o vício dele, correr. Pode caminhar. Quando eu perguntei pra ele como ele tava se sentindo com tudo isso, ele me disse que é claro que não tá tudo o melhor possível, mas é um desafio novo, esse de não poder correr. Esse ano eu entendi que já chegou a hora deu carregar as compras pra ele. De cuidar do pesado. Mas quem me cuida quando eu cuido?

O vidro cai. Estilhaça. Estilhaços.

Até que um dia a Camila me disse: quem me cuida sou eu.

um quadro de van gogh (ou o quarto do van gogh)

Van Gogh. Casa do Dudu. Cadeiras do Dudu. Silvia. Segunda mãe. Eu me sentia, eu me sinto, à vontade para abrir a geladeira. Infância. Riso. Melhor amigo. Diferença. Estranheza. Superação da diferença. Distância. Distância com carinho. Um senso absurdo de estar à vontade com essa presença. Não preciso ser nada além do que sou. Não preciso provar nada. Relaxamento e tranquilidade. Amizade é escolha, depois que a gente cresce. É preciso fazer esforço para estar com o outro, senão nossa vida maluca nos leva a tantos lados, em tantas direções, que o encontro se torna difícil. Depois raro. Depois nunca.

Eu não tenho mais tantos melhores amigos como antigamente.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Mariah_apresentação magnética

Essa é minha mãe Teresa, esse é meu pai Allan e essa sou eu: Mariah.
Meus pais nasceram em 66, casaram em 88 e eu nasci em 99.
7 meses depois eles se separaram. Mas aí, 2 anos depois casaram de novo.
Só que a minha mãe casou com o Beto e meu pai casou com a Tóia.
Aí, quando eu tinha 4 anos, pedi muito e o Papai do Céu mandou o Matheus pelo meu pai, e mesmo sem eu pedir, mandou também a Vero pela minha mãe. 2 anos depois ele mandou o Victor pela minha mãe, e como o Papai do Céu é um cara muito justo, mandou o Biel pelo meu pai.
Com 4 anos eu era filha única e aos 8 anos eu já tinha 4 irmãos.
E viajava que meus pais iam se separar, casar de novo. (um com o outro) e a gente ia morar todo mundo junto. Mas como eu gostava do Beto e da Tóia eles iam ficar juntos e as crianças iam pra lá no final de semana.
E rolou, só que eu não pedi direito e parou na parte em que meus pais se separavam e casavam de novo. Só que mais uma vez foi com outras pessoas. Meu pai casou com a Andréa e minha mãe casou com o Hélcio.
E aí, quando eu já tava grandinha e sabendo que não era bem o Papai do Céu que fazia meus irmãos...  a dona Cegonha deu o Arthur pro meu pai e foi rapidinho buscar a Alice pra minha mãe.
Essa sou eu e esses são os meus irmãos: Matheus, Veronica, Victor, Gabriel e Arthur - e eles são as pessoas que eu mais amo no mundo.
A Alice também seria, mas eu inventei ela pra história ficar mais maravilhasa

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

QUAL O SEU NOME TODO?

ISABEL CRISTINE FIGUEIRA SANCHE CARVALHO
Esse é o meu nome. É importante ressaltar que é Cristinne e que é com dois Ns.
Eu ia me chamar Lucas, mas quando nasci, saiu eu e acho que por não ter nome colocaram ISABEL, que é o nome da minha avó paterna. 
Avó Bel tinha os cabelo compridos e branquinhos. Eu sempre gostei de ter o mesmo nome que a minha vó Bel.
Esse nome meio que moldou minha persona. Sempre gostei de falar ele inteiro, é que eu meio que lembro de mim. Quem sou!?

Dois nomes Próprios
Dois sobrenomes com nome de árvore.
1 sobrenome faltando uma letra, o foda é ter que ficar explicando que é Sanche, sem S no final.

Mas eu gosto mesmo é, quando alguém que eu gosto me chama de Bel. Me sinto muito feliz. É como se no momento que a pessoa me chama de Bel, eu me torno intima dela. É quase uma permissão pra entrar na vida dela e ela na minha. 
Bel, Isabel...

Isabel Sanche :D

domingo, 24 de janeiro de 2016

compulsão + xixi

Xixi

gravar áudio:

- coletar histórias de compulsão

cena:

beber 2 ou mais litros de água ininterruptamente enquanto o áudio é repetido. Terminar fazendo xixi na roupa e emendar na cena do banho.

nariz e casa

Na minha casa antiga não tinha infiltração. Não tinha mofo, não tinha porta quebrada, não tinha janela rangendo, não tinha chão sem piso, não tinha barata.
Quando eu entrava em casa, sentia um cheiro de desinfetante pinho sol e óleo de peroba. Limpeza. Não era muito gostoso, mas tinha cheiro de limpeza. Eu só percebi que o cheiro era esse quando não tava mais morando lá. É que a gente sente o cheiro da casa dos outros, mas não sente o cheiro da própria casa, pq já se acostumou. Eu não sentia o cheiro de lá não...

Na casa que eu moro hoje, tá tudo mofado...a infiltração ta ganhando as paredes aos pouquinhos, as baratas entram pelas frestas que existem nas janelas e portas, o piso estufou. Eh só entrar em casa que o cheiro de úmido ganha minhas narinas e só é substituído pelo cheiro do ralo quando eu chego perto do banheiro. Cheiro do ralo é sempre o mesmo. Cheiro de “tem alguma coisa errada”. Pq se tivesse tudo certo, o ralo não cheirava. Eu sinto cheiro de úmido todo dia. E sinto cheiro de ralo todo dia.
Acho que lá não é minha casa...

Na minha casa mesmo, que eu ainda vou morar, o ralo passa despercebido pelos narizes. Mofo, só tem no pão que o pessoal compra e esquece de comer antes da data de vencimento. Tem nada de infiltração não. O cheiro da casa é uma mistura de amaciante de roupa, comida no fogão, verde e rosa branca. Pena que eu não consigo sentir... é que nesse presente do futuro, meu nariz e minha casa namoram

Jogo + jogo

Jogo + jogo

jogo 1: Munida de lençol e pregadores, propor para outres jogadores a montagem coletiva de uma cabaninha.
Quando estiver pronta, entrar com o máximo possível de pessoas e, propor.
jogo 2: Compartilhar histórias. Dentro de um pote, dispor pílulas de temas. Um papel eh sorteado e cada jogador precisa contar uma história com o tema sorteado.  A história pode até ser inventada, mas o objetivo do jogo eh que os demais jogadores acreditem q eh verdade.

Exemplo de temas.

Uma vergonha que eu passei
O dia que minha vida mudou
A primeira vez que senti saudade
A maior mentira que contei

Na minha casa preferida
Uma vez em Santa Cruz eu...
Eu tenho uma história com uma parede
A vista da minha janela
A pior noite fora de casa
O melhor banho
Sempre tinha na geladeira
Tombo no banheiro
No corredor ficava escuro
Bichinho de estimação
A descarga não funcionou
Naquele dia a sala tava lotada
Perdi na mudança
Acordei com um susto

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Depoimento de Victor Seixas sobre experiência em Casa Vazia

Brincar de declarar É preciso coragem para abrir. Ô se é. Para descer as escadas na companhia do coração vestido de partido alto. Receber as regras com atenção. Perceber a volta do sotaque do amigo que veio das bandas de lá de cima, sedento pela carne preparada pela avó. O banho de chuva, de cuia, de chuveiro, de mãe. É precisa a leveza dos pássaros, a delicadeza do olhar, as crianças, o cão, a vizinhança. É preciso negar o brigadeiro: doce mesmo é a calmaria da Chris. Um convite a um ponto de vista, um abismo de visão, um afago. É brincadeira pura todo o rock para mamãe. O fone de ouvido sem microfone da atriz semi completa que varre o chão. Repleta é Mariah. Envolve, acaricia, seduz e transforma. Conhece as formas. Saboroso fubá, na carona do queijo de minas, batido pelas mãos do pernambucano (já sem sotaque). A mesa posta é Samuca. É farto, é anfitrião, é receita de humano. Segredo é brincar de cegueira, de pé no chão, mão na mão, mão no coração, mão na chave. Segurar forte. Sério é Ricardo. De cartas, de frechas, de lavabo, de frente. Amadurecer é ser capaz de ouvir as mesmas histórias por bocas distintas? Qual é o bastante para não sofrer? Qual a parte que nos cabe nesse caderno? Não foram perguntas, não. Foi a vitória da vontade sobre o medo. Overdose de encontro. Oficina de amor. - Quando você chegar não precisa interfonar, mete a mão (ou a mãe) na maçaneta e pode entrar. E não me diz para ficar a vontade. Isso não precisa. Já cheguei com ela.

Depoimento de Camila Barra sobre experiência em Casa Vazia

Sobre a experiência na C A S A V A Z I A

 Para mim, foi marcante me sentir tão à vontade num lugar no qual eu nunca havia ido e com tanta gente que eu não conhecia. Não só por ter sido bem recebida, mas pelo clima mesmo, aconchegante, caseiro. Era como se eu estivesse em casa, lavando a louça, fazendo o café. Acredito que era a ideia conduzir para esse clima. Bom, conseguiram!
Havia uma conexão entre as pessoas e das pessoas com aquele lugar. E por um tempo, para mim, foi como se não houvesse espaço lá fora, vida além dali, e perdi completamente a noção do tempo, esqueci de ver que horas eram e também não importava. Tinha muito amor ali, amor entre as pessoas, amor com o lugar, amor com o trabalho. Dionísio esteve ali 24 horas com certeza, e fez a festa. Outro que participou ativamente foi São Pedro, porque a chuva que caiu foi providencial. Foi só pra gente poder sentir o cheirinho da chuva, e ouvir o barulho dela no telhado, tomar banho de chuva e sentir a grama molhada no pé enquanto Samuel se lembrava da infância.
Era muita sinceridade nas relações, no que foi apresentado. No mundo “real” somos mais fechados, difícil ter uma relação assim aberta com o outro. O que pôde acontecer ali foi raro, foi poesia, foi de uma delicadeza de sentimentos e sensações que eu queria pra sempre. Uma experiência pra se lembrar em certos momentos.
Tocaram no sutil, no delicado, nas pequenas coisas lindas da vida: o almoço compartilhado, o café com bolo de fubá, as lembranças, os segredos e os artistas... tanta sinceridade. Isso foi o que mais me tocou de tudo, me sentir conectada com as coisas mais singelas. Acho que casa é um lugar que te trás isso de alguma forma, porque é aconchego, é intimidade, é estar à vontade... proteção... é poder relaxar.
Sei lá, em cada um bate de um jeito, claro. Em mim foi assim: me tocou a singeleza, o sutil, as pequenas trocas. E foi lindo!
Aliás, foi muito louco porque às vezes eu não sabia se via uma cena ou não. Era tudo tão honesto, tão verdadeiro que sei lá. Foi difícil ver a construção em algumas coisas, parecia tudo improviso, quero dizer, uma conversa que simplesmente aconteceu... as transições pras cenas foram muito leves. Parecia que cada um falava a sua história porque deu na telha falar, sei lá. Pareceu que eu só estava ali na casa de uns amigos e, às vezes, rolava umas conversas; que o Samuel sentou pra bater bolo na sala só por coincidência, que o Ricardo e a Mariah brincaram com os imãs da geladeira só porque ocorreu deles estarem ali mesmo. Claro, que era perceptível o trabalho construído, pensado, bem dirigido. Mas sei lá, na hora a gente acredita que tá vivendo aquilo, aquele momento e só. Não parece teatro entende. Não sei se to me fazendo entender. Tá tudo muito fresco ainda. Percebo, principalmente agora avaliando com calma, que foi tudo muito bem pensado, ensaiado, preparado. Mas pra gente que assistia parece só que simplesmente aconteceu!
(e ainda to encucada porque a Cris, no banheiro, contou a mesma historia que a Mariah tinha contado no jogo um pouco antes na sala, quando pegou o papel escrito “meus pais”... ainda quero saber quem que, afinal, olhava o vizinho pela janelinha do banheiro...).
Um dos momentos que achei mais incrível foi ficar escutando a Mariah falar ao telefone enquanto fazia brigadeiro. Parecia que ela não via a gente ali e que eu estava espionando a vida dela, que, afinal, tava ali só fazendo uma coisa normal num dia normal. Ao mesmo tempo, eu, quietinha na minha, senti que também não era vista, que estava segura ali sentada fingindo que não fazia nada enquanto ia ouvindo ela, e ia me identificando com o que ela dizia, pensando...
Ah galera, eu fui realmente tocada por esse trabalho, pela forma como ele aconteceu! Escrevi para tentar entender o porquê, mas algumas coisas ficam no plano do subjetivo mesmo. Foi um dia lindo! Obrigada e Parabéns pra vocês todos.

Camila Barra



p.s.: Mariah, dos quatro você era a única que eu não conhecia e simplesmente adorei você! Parabéns pelo trabalho. Samuca, Cris e Ricardo, vocês são lindos sempre! <3 

Depoimento em áudio de Luiza Toschi sobre a experiência em Casa Vazia

"Eu “tô” aqui num taxi […] acabei de sair da casa e eu percebi que meu olho “tá” diferente. […] é como se eu tivesse descoberto uma perspectiva um pouco distante.... Como se eu estivesse conseguindo olhar as coisas de longe e agora, o fato de estar na rua, com carros passando, árvores, marquises e prédio, tudo ganha um tamanho muito diferente. Como se eu estivesse numa maquete... como se isso não fosse a realidade, sabe?"

https://soundcloud.com/gabriel-morais-4/depoimento-de-luiza-toschi-sobre-c-a-s-a-v-a-z-i-a

domingo, 29 de novembro de 2015



(Seguro um cartaz com a imagem de uma mulher na frente do rosto. São muitos cartazes, todos com imagens de mulheres. Cantarolando, convido que me acompanhem. No caminho para o banheiro vou tirando os cartazes da frente do rosto e os deixo pelo caminho.) (Ainda com cartazes na frente do rosto) Vou começar pelo obvio. Camila, 27 anos. Agora eu poderia listar algumas memórias, (volto a tirar os cartazes da frente do rosto enquanto falo) falar sobre a minha infância, meus pais,  minha cachorra, os gatos que já tive, as casas onde morei, os amigos que deixei pelo caminho, aqueles que carrego comigo desde muito tempo, meus desejos, minhas dores, tantas coisas, parece impossível fazer um recorte. Meu Deus! Sim, eu acredito em Deus, Deuses e Deusas. (acendendo velas) Cavalarias de seres de luz. Ando mística ultimamente, para não dizer religiosa. Tenho descoberto tantos eus em mim, talvez, por isso, seja tão difícil escolher sobre quem falar. Essa semana mesmo, apresentou-se para mim a minha guardiã. Eu mesma. (de dentro do box, com a porta fechada, suspensão na posição da guardiã) Mãos fincadas na terra, estado de vigília, protejo a mim, meu território, ergo minhas fronteiras e sei que nada de ruim pode acontecer, pois eu estou aqui fazendo a minha guarda. Atenta. Cuido de mim como ninguém poderia fazer. (desmonto) Durante muito tempo me entreguei aos cuidados e ao descuido dos outros, hoje eu cuido de mim, sou meu próprio colo. Como é difícil enfrentar a mata fechada que pode ser alguém, eu, o outro, é preciso ser Iansã guerreira, humildemente corajosa para enfrentar o desconhecido. Para deixar-se conhecer.(saio do box) Uma sensação de imensidão para dentro. Ando recolhida. Seleciono cautelosamente aqueles que podem cruzar minhas fronteiras e conhecer meus territórios, poucos chegam a me encontrar por aqui. Mas eu disfarço bem e entrego com carinho algum aroma de mim. Até ser encontrada, nas profundezas de mim, pequena e imensa, por sutis e enormes olhos, capazes de perceber que nós, todAs nós, encerramos em nós a origem de todas as coisas. (saio carregando todos os cartazes, como quem embala a si mesma. todas. eu.)



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

não sabia usar

uma vez eu conheci um cara que tinha um pau maravilhoso e não sabia usar. uma vez eu conheci um cara que tinha uma cabeça maravilhosa e não sabia usar.

ideia

que tal se a gente escrever no papel higiênicos e nos pequenos pedaços de papel espalhados pela casa?

cotonete

- um bom cotonete é o equilíbrio perfeito entre o prazer e a dor. eu amava que a minha mãe limpasse meu ouvido. na verdade, até hoje eu gosto.

- sabe o complexo de édipo?

- sei.

- então. pensa sobre isso.


apresentação reloaded

(arrumando alguma coisa) isso aqui era um material, uma roteirização performática, como diz a gabi, a nossa orientadora de direção. uma cena, não importa, sobre mim. uma apresentação. começava comigo cantando uma música da... como é que é o nome dela, gente? (cantarola) é que meu pai sempre colocava pra tocar no carro, quando a gente tava indo pra escola. daí eu começava a falar sobre mim, que meu nome é ricardo cabral pereira mas que eu não gosto do pereira, que nasci dia nove de abril de mil novecentos e noventa às quatro e vinte da manhã e que sou maconheiro. que sou brasileiro e petropolitano, que sou gay, ariano e pisciano. (procura o papel, entrega para alguém) ó, aqui tá o texto todo, se você quiser ler. mas não tem tanta coisa interessante não. eu sempre odiei fazer essa apresentação. responder quem eu sou. tudo acontece numa sequência muito rápida, sem trégua. eu já nem sei em que acreditar, não tenho tempo nem de pensar. você vive muito depressa, meu pai dizia. essa ganância de viver. o passado... eu não tenho presente, não tenho nada, não fiz nada. por que eu não posso parar um pouco? descansar. não dar mais um passo. eu sinto que tem uma fresta na minha alma por onde a substância do que eu sou está sempre escapando, mas eu não vejo onde nem por que. eu olho pra trás e vejo tudo aquilo que eu fui e que eu não sou mais. eu olho pra trás e vejo tudo aquilo que eu fui e que eu não sou mais. eu não quero me apresentar. o gabriel que se apresente. a chris que se apresente. eles que se apresentem. é a última vez que eu faço essa cena. e eu quero terminar com um trecho do sabino, que nunca me deixaram ler, só porque era cafona: de tudo ficaram três coisas: a certeza de que estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. fazer da interrupção um caminho novo. fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

domingo, 1 de março de 2015

SAM'S BIOGRAPHY

Nasci em 11 de julho de 1983 numa pequena cidade do agreste pernambucano; Limoeiro. Lá vivi grandes aventuras na minha infância e adolescência; fiz sexo a primeira vez com outro homem, comecei a fumar, beber e usar maconha aos 13 anos. Sou de uma família de três irmãos: eu que sou o caçula, o do meio que se chama Esdras e a mais velha, Areli. Minha relação com Esdras sempre foi muito difícil, mas às vezes oscilava para fases mais pacíficas; com Areli, que mais tarde teve os meus sobrinhos Arieli e Tomaz, eu era indiferente, apesar de às vezes achá-la insuportável. Minha mãe sempre foi minha grande referência, mesmo muitas vezes sendo tão diferentes. Já meu pai, à medida que fui crescendo, ele ia ficando quase todo momento em segundo plano, mas não menos amor a ele por isso. Vivi até meus vinte anos no interior de Pernambuco. Depois disso, fui para capital Recife estudar jornalismo. Ali tive importantes experiências de conhecimento e de relacionamento, que jamais teria na minha cidade natal e que foram fundamentais ao meu amadurecimento. Morei com meu irmão, que já saíra de casa alguns anos antes e quem bancou minha moradia e estudos em Recife, apenas um dos quatro anos que vivi na cidade, pois as diferenças entre a gente se mostraram insuportáveis. Nos separamos e a partir dali começava a minha independência total, o que me deixou muito aliviado e que levei muito a sério. Levei à sério até demais. A partir daí, se instaurou no meu inconsciente uma extrema necessidade de “vencer na vida” e isso me tornou uma pessoa desprovida de leveza e de vontade de lazer. Eu não tinha tempo a perder, precisava fazer isso de qualquer jeito. Minha paixão pela dança e o pouco que desenvolvi de danças populares, em paralelo ao jornalismo, me trouxe ao Rio numa oportunidade de trabalho e remuneração que jamais teria em Recife. Vim com uma certeza que não voltaria tão cedo. Quando cheguei aqui me encantei e de cara sabia que não voltaria mais. Aqui tive a oportunidade e a coragem de desenvolver a parte que sempre soube que faltava em mim: o teatro. Respirando esses novos ares geográficos e artísticos, minha vida tomou um rumo excitantemente lindo e louco ao mesmo tempo. Nesse meio tempo, crises de identidade, paixões avassaladoras, pessoas encantadoras e experiências artísticas maravilhosas e também muito difíceis. E a necessidade de "vencer na vida", nessas terras de mil possibilidades, tornou-se ainda mais pesada e um tanto doentia a ponto de não conseguir construir grandes relações de afeto, disso não ser o mais importante. O tempo dispendido é focado muito na necessidade de trabalho e de pagar as contas. Sinto-me hoje preso a esse ciclo vicioso que me impede de crescer.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

falta material aí ó

entrevista
caixas
objeto de cada um
o silêncio e as ações
o que vc fez de incrível essa semana?

JÁ VÔ

Já Vôôôô!!!!

Todo dia, meio dia em ponto minha avó me chama pra acordar o meu avô.
É um ritual:

Eu levo um copo de água ou chá e deixo no criado-mudo, do lado dele
dou um beijo com muito carinho e silêncio no meu Lelo
abro a janela
ligo a TV

Desço e sei que ele só vai descer as três da tarde (completamente cheiroso) pra almoçar e ir trabalhar no restaurante.
Ele faz isso todo dia, sete vezes por semana, todos os dias do ano. Desde que eu me entendo por gente.
Chega no restaurante e senta na mesa no meio do salão. De lá ele vê tudo. o forno, a porta, o caixa, os garçons e os clientes. E até as costas, o que tá longe do olho... ele vê tbm.

Eu nunca soube como ele fazia isso, mas em casa era a mesma coisa - ele sabia quem tava bem na escola, quem tava bem e mal de grana, se tinha rolado alguma briga... Isso pq ele ficava em casa aquelas três horas no quarto, almoçava, ia trabalhar e só voltava na madrugada.

E eu tbm não sei bem pq escolhi contar essa história. Sei que ele foi meu pai, que tava sempre lá pra mim... que era o cara mais justo que eu já conheci...

E que eu daria um ano inteiro da minha vida pra repetir aquele ritual por mais um dia.



palavrar.

Naquelas de começar a exercitar a escrita...
Escrever pelo ato, pela repetição, pela melhora... pra tocar.
Pra tocar? Impossível tocar quando não se é tocado... Impossível levar quando nada chega...
E a mediocridade dança... Tudo já foi dito, tudo já foi escrito, tudo já foi sentido.... E a mediocridade dança..
Dito, escutado, escrito, lido... Mas, Sentido? Sentido por quem? Aqui nada é sentido... busca-se O sentido, UM sentido, mas nunca o sentir... Nada se sente...Mas, ei... Isso também já foi dito, escrito, sentido... Sentido por quem?! Aqui não se sente... Não importam o tema, a imagem, as palavras.. Nada toca, nada permeia, nada se sente... Tudo simplesmente passa...e quando muito, levemente arranha...
Muito fechado, muito racional... congelado! 
Falta cheiro, falta cor, falta plasticidade... Não, não!! Ta tudo aí... Ao alcance, e em quantidade suficiente pra quem quiser.... Só Falta sentir, acolher, descongelar!
E, como diria o poeta (porque tudo já foi dito) Socorro!! É preciso descongelar...
E quando o descongelamento faz sentido, quer ser sentido! parece que borbulha, chacoalha, treme... Concentradas no timo, as sensações vibram! É hora de cheirar, de enxergar, de sentir, de despertar!.....  BUUUUUUUUM!!!! Agora sim!! .. ao infinito, e quiçá, ALÉM!

escrevivendo

Escrever é necessidade
Escrever é penseira que [dez]organiza as palavras 
é o direito à dú-vida, é transmissão de IN-certeza
Escrever é o poder de transformar.

letras?  e Despertar?

- Se sente!
Escrever é rir, é chorar, é [in- de - per] formar . e mutatis mutandi 
Escrever é éter

café, lotação, sensação - expressa.

emoção. libertá, 

Escrever é superviver....

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Manifesto do cafuné

Um dia eu ainda vou escrever um manifesto do cafuné!!

E vai começar assim:

Não se cumprimentem com apertos de mão, beijinho no rosto ou só com o olhar.
A partir de hoje, ao cumprimentar alguém, ofereça um cafuné e se permita receber um cafuné...

Acho que se a gente trocasse cafunés, o mundo ia ser mais molinho....-

Sabia? átomos e abraços

Sabia que a gente nunca se toca de verdade?

Os átomos não se encostam de fato... o que a gente tem é uma sensação do contato - a matéria é só ilusória...
O que significa, que quando a gente se encosta não tá encostando de verdade.

Mas é incrível, né? que a gente possa ter essa sensação, ainda que ilusória... essa ilusão de acabar com a distância...

  http://www.curaeascensao.com.br/curaquantica_arquivos/curaquantica/curaquantica662.html

Até porque, mesmo que seja só uma sensação - o toque é extremamente poderoso.

Sabia que um abraço que dura mais de 20 segundos promove o bem-estar e tem um efeito terapêutico?

é que o abraço apertado libera um hormônio chamado ocitocina, que tbm é conhecido como hormônio do amor.

  http://acritica.uol.com.br/vida/Hormonio-abraco-beneficios-fisica-humano_0_1051694850.html

Paradoxal que a gente não se toque, mas que o toque faça tão bem. Mágico!

Portas e portais

Eu já ouvi falar que não é muito bom ficar embaixo de porta. Alguém sabe pq?

é tipo uma parada energética... Cada ambiente tem sua própria energia e ficar embaixo de portais é como estar no cruzamento dessas energias... aí, dependendo de que energias são... não faz muito bem!

[partitura da pulada de porta

http://www.jcatibaia.com.br/site/coluna/luiz-netto/196/a-protecao-comeca-pela-porta-de-entrada.html

fogo e fogueira u 15min?

“A noite em redor de uma fogueira é um momento universal para formar laços, difundir informação social, para se entreter e partilhar emoções”,“A noite em redor de uma fogueira é um momento universal para formar laços, difundir informação social, para se entreter e partilhar emoções”


...


” O que acontecerá às relações sociais num mundo onde “apenas tenho 15 minutos para contar uma história de adormecer aos meus filhos”?

...
http://www.publico.pt/ciencia/noticia/conversas-a-luz-de-uma-fogueira-terao-estimulado-a-evolucao-das-nossas-capacidades-cognitivas-sociais-e-culturais-1670502

barulho

Compartilha um silêncio comigo?

manga na boca

[1 pessoa - afastado - comendo manga]

Vc gosta de manga?

(Se sim, oferece e pergunta:

De que
maneira costuma comê-los? Com a boca toda, não é? Abre-se
pelo meio; depois apertamos com os dedos até escorrer o sumo...
como dois lábios carnudos... Que delícia! 

Se não, responde: eu adoro)

Na minha casa, sempre tinha uma cesta de frutas. Mas, na época do Natal, tinha bem umas três cestas... e uma delas era quase inteirinha de manga.
O cheiro de manga me leva direto pro Natal na casa da minha avó. Engraçado que eu lembro do cheiro do Natal na minha casa, mas do cheiro da minha casa mesmo, eu não lembro... Sabe?

Aquela espécie de cheiro particular de
cada casa! Da sua, da minha... – mas na nossa, nós já não sentimos
mais, porque já é o cheiro da nossa própria vida...

Eu não consigo mais lembrar qual era o cheiro da minha vida.
A casa era enorme. Eu morava lá com os meus avós, minha tia, minha mãe e meus irmãos.

Tinha 4 quartos, duas suítes, 3 salas, 1 salão de festas, 1 jardim de inverno, 1 lavanderia, 1 cozinha, 1 copa, 1 vestiário, 1 piscina, 1 pé de cacau, 1 quarto de costura, 1 garagem pra 6 carros, 1 pé de cacau e o meu canto preferido - a biblioteca, que tinha cheiro de mofo e livro novo, ao mesmo tempo -

eu morei lá a vida toda.

Aí minha mãe foi pra Vinhedo, minha irmã foi pra Minas, meu avô foi pro céu e eu vim pro Rio.
E a casa ficou grande pra minha avó e a minha tia.

Ano passado, elas venderam a casa e a gente passou o último Natal lá.
Agora já entregaram, já demoliram, doaram os 5 mil livros do meu avô e esse ano vai ser meu primeiro Natal em outro lugar...

Tomara que ainda tenha cheiro de manga...

apresentação magnética

Oi!
Nem me apresentei, né?

Meu nome é Mariah Valeiras Aguiar Miguel.
Valeiras por parte de mãe e Aguiar Miguel por parte de pai.
E eu tenho uma ex-madrasta, um ex-padrasto, uma madrasta, um padrasto, uma mãe, um pai,quatro irmãos e uma irmã. 2 por parte de mãe, 3 por parte de pai.

Vem cá que eu vou explicar melhor.

[na geladeira, imãs]

Esse aqui é meu pai Allan Aguiar Miguel, e essa é minha mãe Teresa Valeiras
E essa sou - Mariah Miguel Valeiras. Mariah, de Mariah - Miguel de Miguel - e Valeiras, de Valeiras mesmo.
Quando eu tinha 7 meses, meus pais se separaram - mas, quando eu completei dois anos eles se casaram outra vez (junta os imã e e separa outra vez) só que com outras pessoas.
Minha mãe casou com o meu padrasto Beto e meu pai casou com a minha madrasta Tóia.
Mais uns dois anos e meu pai engravidou o Beto do Matheus - menos de 6 meses depois, e minha mãe engravidou a Tóia da Veronica. O Matheus, por parte de pai, tem 20 anos - e a Veronica, por parte de mãe, tbm.
Só que aí, mais uns dois anos foi a vez do Beto parir o Victor e a Tóia, parir o Gabriel. O Victor, por parte de mãe, tem 18 anos e o Gabriel, por parte de pai, tbm.

Só que aí, um tempinho depois, minha mãe resolveu se separar - aí o meu pai nem esperou muito, se separou tbm e já casou de novo - aí, minha mãe deu um tempinho e tbm casou a terceira vez.

Nessa época, meu pai engravidou do Arthur e minha mãe já foi logo fazendo a Alice. O Arthur, por parte de pai, tem 7 anos, e a Alice, por parte de mãe tbm.

O Matheus,  Veronica, O Victor, O Gabriel e O Arthur  são as pessoas que eu mais amo no mundo.
A Alice também seria se eu não tivesse inventado ela só pra história ficar mais redonda...

Mas é isso.
Prazer, meu nome é Mariah Miguel Valeiras e eu tenho 5 irmãos mais novos.

Raphael

[no banho - - moicano de shampoo]

Mãe é mãe,
mãe não é só mãe
Mãe é tudo na minha vida

Mãe é amor,
mãe é amizade
mãe, eu amo você de verdade

Oi, Rapha,

Ah, não me vem com essa de querer mudar de nome outra vez... Já falei q não pode!

você gostou da música que eu fiz pra minha mãe?
Outro dia ela me disse que eu posso ser tuuuudo que eu quiser, menos cantora! E.... tudo bem, porque eu não quero ser cantora mesmo,

mas...
... outro dia, eu vi na televisão que a Cláudia Raia é uma atriz completa, porque ela canta, dança e atua.
 E eu quero ser atriz... e eu não sei dançar, aí, fiquei pensando que se eu aprender a semi cantar, eu posso ser uma atriz semi completa.... tá bom, né?
e, pelo menos eu já to compondo, também...

Se eu já começar a fazer minhas músicas agora, eu posso ter um montão de música quando eu tiver uns 19 anos e já for famosa...

Pq vc tá rindo? Eu não acho nenhuma graça...

E, pro seu conhecimento, senhor Ra - pha - el, o senhor nem deveria estar aqui tomando banho comigo...
Não me importa que você seja um amigo imaginário. Eu já tenho 8 anos... e como minha mãe mesmo diz, já sou uma mocinha!

Mãe é mãe,
mãe não é só mãe
Mãe é tudo na minha vida

Mãe é amor, 
mãe é amizade
mãe, eu amo você de verdade

sábado, 29 de novembro de 2014

Caminhar em preto e branco, linhas e aspargos

Quando eu era criança eu gostava de andar na rua pisando só naquelas cerâmicas ou pisos que tinha preto e branco sabe? Eu só pisava no preto. Ou no branco dependia da regra do dia. Às vezes era só nas linhas ou só no meio fio das calçadas. Mas o que eu mais gostava era de pisar nos pretos... sabia que os aspargos são cultivados no escuro pra nascerem brancos? Cultivados no escuro pra nascerem brancos... Engraçado isso ne? Não é engraçado? S A M U E L C A S A C O S M E V E L H O

Sobre soldadinhos, carambolas, açude, chuva, "carcunda", colchões e xixi de vovô


Experimento - Saudade - 17/10/2014

"Soldadjinho de chumbo...tsc! (Com sotaque) Soldadinho de chumbo. Inseto. Sabe soldadinho de chumbo? Aquele bichinho preto com um pinta branca na barriga? Tinha um monte de soldadinho de chumbo no quintal da casa da minha avó. Quintal da casa da minha avó. Tinha um monte de soldadinho de chumbo no pé de carambola do quintal da casa da minha avó. Carambola. Suco de carambola. Casa da minha avó. Carne de panela da minha avó. - Vóóóó, tem carne? Vóóóóó tem carne? A carne de panela de vovó é tão gostosa. Eu gosto que só! O quintal da casa da minha avó era bem grande! Tinha pé de carambola, goiaba, laranja. E no fundo do quintal meu avô fazia colchão de capim forrado com xita pra vender. Não lembro da voz do meu avô. Ele já não falava mais, nem tomava banho. Era um cheiro de cachimbo e xixi que ele tinha. Caminho da casa da minha vó pra minha casa. Da minha casa pra casa da minha avó. Da casa da minha avó pra minha casa. Da minha casa pra casa da minha avó. Sempre na corcunda do meu pai. Era tudo na corcunda do meu pai. Açude na corcunda do meu pai, feira na corcunda do meu pai, igreja na corcunda do meu pai, praça, rua, mercado, escola, chuuuuva na corcunda do meu pai. Quando chovia a gente gostava de mergulhar na correnteza que se formava no meio fio das calçadas. A gente mergulhava e deixava a correnteza levar. Era água muito suja viu? Muito suja!! Mas a gente nem ligava!! - Uhhuuullll!!! - Mas, às vezes, era tempo de seca. A gente tinha que juntar água. Juntar água pra economizar. Tinha que tomar banho de cuia. - Já tomou banho de cuia? - Era cinco cuias de água pra cada banho, pra não gastar muita água. - uma, duas, três, quatro, cinco... - pronto, tava limpo. (deita na posição inicial, fecha os olhos, suspira) Eu queria poder dormir e quando acordar sê lá. Seria tão bom se a gente dormisse e quando acordasse fosse lá ne? Eu queria acordar e sê lá..."
S A M U E L
C A S A D A C H R I S

Meu pombo morreu!

Um dia, quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, um pombo caiu no quintal da minha casa. Achei lindo e comecei a cuidar dele como um bicho de estimação. Ele tava ferido e bem sujo. Resolvi dar um banho nele pra ver se ele melhorava. No quintal também ficava o tanque de lavar roupas. Lá estavam algumas roupas de molho no sabão em pó. Imediatamente mergulhei o pombo naquela água ensaboada e esfreguei, esfreguei, esfreguei, enquanto ele se debatia e emitia alguns sons de desconforto. Eu tava crente que tava fazendo bem a ele tirando aquela sujeira e deixando ele cheiroso. Quando achei que tinha terminado, larguei o pombo no chão, onde tinha sol pra ele secar. O pombo não deu mais que cinco passos e caiu duro. Eu pela primeira vez na vida perdia algo de grande valor. Chorei, gritei, esperneei. Meus pais correram pra tentar salvar o pombo, mas já era tarde. Minha mãe, pra me consolar, prometeu fazer um enterro bem bonito e trouxe uma caixa de sapato e alguns retalhos de tecido pra envolver o pombo. Dediquei-me a esse evento e acabei esquecendo de sofrer. Levamos a caixa de sapato, com o pombo dentro, para casa da minha vó e enterramos ele embaixo do pé de limão. Tenho uma imagem pouco nítida desse dia. Lembro de algo como uma manhã e uma luz de sol fraquinha. Enterramos e voltei pra casa na "carcunda" do meu pai. S A M U E L C A S A C O S M E V E L H O

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

minha casa não tinha portas

eu pego na sua mão e te trago comigo, para um canto bom, um lugar onde a gente possa conversar. eu estou aqui com você, agora. peço pra você fechar os olhos. pergunto o que você ouve, o que você escuta, dos barulhos mais próximos aos mais afastados, quase irreconhecíveis. então começo a falar. talvez você abra os olhos, talvez não.

minha casa não tinha PORTAS. quer dizer, é claro que tinha, mas elas nunca eram FECHADAS, muito menos TRANCADAS. acho que foi por isso que me acostumei a ouvir CADA RUÍDO da casa.

levo você para uma pequena volta. continua com os olhos fechados?

estou aqui sentado em meu quarto, o quartel general do barulho de toda a casa. ouço baterem todas as portas, ouço ainda a porta do fogão sendo fechada.o pai arromba as portas de meu quarto e o atravessa arrastando a camisola. no aquecedor, no quarto contíguo, as brasas estalam. valli pergunta, da antecâmara, bradando palavra por palavra se o chapéu do pai já foi limpo. a maçaneta da porta da frente é abaixada, e a porta continua se abrindo, com um canto feminino. e fecha-se finalmente com um tranco abafado, masculino, que soa como o mais desconsiderado.

sabia de longe quando o barulho dos CHINELOS batendo no chão era de meu pai. ou, pelo ranger das dobradiças, quando era minha mãe que fechava a JANELA.

trago sua mão pro meu coração, pra você sentir minha pulsação. pra mim, tampouco está sendo fácil falar. 

um dia MEU PAI ENTROU NO QUARTO e eu estava com o pau pra fora, duro. eu batia punheta de porta aberta, claro. era muito melhor pra escutar se vinha alguém chegando. durante muito tempo, pra mim o prazer do sexo se resumia ao MOMENTO DO GOZO. só na ARGENTINA comecei a sentir prazer antes de gozar, e a verdade é que até hoje ainda estou aprendendo. talvez porque lá eu pudesse me trancar O QUANTO QUISESSE. minhas portas de la plata foram tão importantes que até hoje guardo minhas chaves de lá, como se elas me EMPODERASSEM de alguma coisa.

abre os olhos. agora, me conta um SEGREDO TEU?

Familia Chris

Pego o rádio, ligo e peço ajuda para colocar na rádio 99,9. Vou até a geladeira pego uma forma de gelo e um copo. Tiro os cubos, coloco dentro do copo e começo a conversar com o público, aos poucos vou mexendo no gelo.

Passei esse final de semana na casa dos meus pais. Acho muito engraçado perceber que nada mudou. Eles são como duas pessoas que permaneceram da mesma forma há anos, desde que sou pequena. O tempo passa e as memórias se repetem.  Eles brigam da mesma forma, pelas mesmas coisas, reagem do mesmo jeito.

Nós sempre andamos de carro, longos trajetos. Os dois sentados na frente, eu atrás,todos calados, quietos. Só se ouvia o rádio. Sentia o peito apertar, uma vontade de fugir, sair desse lugar. Secretamente pensava em pular do carro em movimento, me imaginava rolando e em seguida morrendo, melhor mudar o plano. Acabava me rendendo a música, cantarolava, batucava, fechava os olhos, deitava no banco de trás e ficava vendo o mundo passar de cabeça para baixo, a copa das árvores, o sol que se escondia ou se revelava por detras das folhas me cegando, os fios de energia, pedaços do céu...

Em algum momento eu tentava interagir com eles, fazer uma coisa diferente, os desafiava, ríamos um pouco, brigávamos um pouco mais. Tentava lidar com o inaceitável.
Minha mais audaciosa tentativa de contato foi em um Natal, tirei meu pai no amigo oculto e resolvi dar um livro para ele: A Terra Vista do Céu, dei o livro e escrevi uma carta para ele, que tinha coisas que escrevi e no final um poema do Caeiro.

Li a carta assim que entreguei o presente, na frente de todos. Eu o agradeci por tudo que ele havia feito por mim, disse que o amava e sabia que ele estaria sempre ao meu lado. E fiz também um apelo, para que ele olhasse para as coisas mais simples, percebesse a poesia do mundo, apelo esse feito utilizando as palavras do poeta.

Sua reação a esse gesto foi de total asperza, me deu uma resposta raivosa, vomitou palavras, em sua maior parte de ataque, disse que eu precisava acordar para a vida, crescer, ver o mundo como ele é, disse também que esse poeta apesar de genial era esquizofrenico e que era preciso tomar cuidado com esse tipo de coisa...

(Pausa)

Eu perguntei para minha mãe que objeto ela gostaria de ser. Sabe o que ela respondeu? (Pergunto para o público)

Uma jarra

Coloco o copo até o gelo estar quase todo derretido em uma superfície e dentro dele coloco uma flor. Vou embora ou sou interrompida por um dos atores.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Saudade Chris

Toco Asa Branca na gaita e vou andando para a parte de fora da casa (tendência para que a cena aconteça depois da saudade do Samu). Lá, bem no centro, está colocada uma cesta com vários relatos de saudades que serão coletados ao longo do processo. Os participantes só poderão pegar um dos papéis, se colocarem outro no cesto e ao pegarem o papel poderão ler ou não para o grupo. À medida que a cena acontece deixo de tocar a música e começo a emitir sons, brincar com as melodias até que a cena é atravessada por um outro dispositivo. 


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Um pouco de Pessoa

"Tudo quanto um homem expõe ou exprime é uma nota a margem de um texto. Mais ou menos, pelo sentido da nota, teríamos o sentido que havia de ter o texto; mas fica sempre uma dúvida e os sentidos possíveis são muitos"


O dia em que trouxemos algo

Ricardo

Os sons de uma casa
Maçaneta na porta 
Canto dos bichos

(Como é quando um homem bate na porta ou uma mulé?)

Oportunidade para um pequeno desespero
Rituais de uma casa -  sensações dos lugares da casa

Samuel

Tempo doente, cansado
Pegar os pedaços do tempo
Mastigar as horas
Gostaria de um terço das oito horas

Mariah

"Um tanto assim que é tanto"

admirar a beleza das perguntas, muito mais...

o mundo de dentro. simplicidade. distorções da percepção. o olhar de cada um na casa. único. intransferível. partilhado. amasso da cama feito com a tinta --> textura confortável.

 

Apresentação Chris

(Começa a apresentação no banheiro da casa. (Em algum momento ser interrompida por algum dos atores batendo a porta ou por ou discussão ou uma pílula de ação.)

Sempre tive uma sensação de despertencimento
Do lugar onde nasci, inclusive de mim
Sou filha única de pais com uma leve tendência ao controle
Passei muito tempo brincando sozinha em casa e meu lugar favorito era o banheiro 
Era o único comodo que eu podia trancar (tranca a porta)

(Falando mais rápido) Gostava do frescor do banheiro, da água, da banheira, do espelho em cima da pia, das maquiagens e cremes da minha mãe...

Fazia ali minha pequena ilha. Virava uma pirata, india (subo em cima da pia) 
Dentro do box tinha um batente onde eu subia e espiava um recorte do mundo lá fora, o prédio vizinho, na verdade, olhava para o apartamento que ficava bem na frente da fresta e espiava seu morador solitário.

(senta na pia e olha para o espelho) Quando dava conta estava de frente para o espelho. Ficava lá não por vaidade, mas para cair dentro do labirinto de minha própria imagem.

Reconhecer que não haveria reconhecimento
que a imagem absurda seria sempre de um outro
dimensões em coexistência
agente e espectadora
deixando-se possuir por todos que não eram ela
na temporalidade cotidiana
pensando que se um padre espiasse pela fechadura 
e a inquisição ainda estivesse na ativa
em poucos minutos ela estaria dançando 
junto ao fogo onde fora forjada
cabelos delicados quase quebráveis 
olhos penetrantes pontiagudos
(falar o que estou vendo, o que reparo no dia)

rosto nosso
absoluto e andrógino
de cuja simbiose indenitária 
não pode ainda abrir mão

Lembram da banheira? Tinha um jato na banheira...

(sai. Em algum outro momento da experiência, experimenta)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

01 (hum) sonho

A casa é grande.
Atmosfera hostil,
Do lado de fora, um descampado e muita terra. Passam dois bois.
é sobre teatro e a impossibilidade do teatro.
Lála taí.
Seguimos, em corrida, os dois animais.
Galope.
Acordo.

escorre tempo

tempo escorre não linear não apreensível
perfura.
perfuração e abcesso.
dar a ver
relação?
Sublime! Banal...

Ricardo e Kafka

memória. rotina passada passado.
cheiros - sons.
Imagens que trazem um tempo à tona. presentificam. passadificam.
angústia e conforto
tristeza bonita
alegria saudosa

CONTIGO

cidadã instigada

Suspensão.
Textura cremosa
Intimidade - virada - depoimento - rotina - cotidiano - corriqueiro - passagem - cruzamento
TROCA. TOQUE.

"Liberdade no encontro com o Outro"
Olhar. escuta.
ando, paro e respiro.
Silêncio na multidão. GRITO de indivíduo.
Melodia que abraça.
Embalar. (embalo - embalagem)
Revestimento.

crocância

Luzes apagadas, pequena fresta na janela.
Iluminação cambaleante / bruxuleante do televisor. blockbuster.
Cobertor. almofadas. sofá. coxa. cabelo. cafuné. pele. montinho. aconchego.
pipoca. o cheiro que toma conta da sala. pipoca salgada, pipoca com manteiga, pipoca doce. mastigar de pipocas.
pausa pro xixi.
tssss. alguém abriu a coca-cola. não tão gelada, pq fora da geladeira. coca, pipoca e filme no sábado. quantos filmes a gente já viu? abre o chocolate e coloca mais um. amanhã ainda é domingo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"À porta quem virá bater?
Em uma porta aberta se entra
Uma porta fechada um antro
O mundo bate do outro lado de minha porta."

Pierre Albert-Birot

Então...

- VAMOS COMEÇAR?

Uma palestra

casa | s.f. 1 associação: agremiação <a c. do estudante> 2 botoeira <as c. de uma blusa> 3 classe <a c. do milhar> 4 convento: mosteiro <c. beneditinas> 5 década: decenário, decênio <ele já está na c. dos 30> 6 decoração: mobiliário <c. luxuosa> 7 divisão: espaço, subdivisão <quantas c. tem um tabuleiro de damas?> 8 domicílio: habitação, morad(i)a, residência, vivenda 9 lar: família <a educação começa em c.> 10 linhagem: dinastia, estirpe, geração <a c. de Bragança> 11 loja: armazém, estabelecimento, (super)mercado 12 fig. plateia: assitência, público <a estreia teve c. lotada>

casa sf. 1. Edifício destinado, em geral, a habitação. 2. Lar, família. 3. Estabelecimento, firma. 4. Abertura por onde passa o botão; botoeira. 5. Grupo de dezenas, começando por dez ou múltiplo desse número, na idade de uma pessoa. | casa de detenção. 1. Estabelecimento oficial onde ficam detidos os réus que aguardam julgamento. 2. P. ext. V. cadeia (2).

casa s.f. 1. Casa, vivienda, residencia. 2. Ojal. 3. Casa, establecimiento comercial o industrial. 4. División de tablero, casilla, casillero. 5. Casa, familia noble. 6. Fig. Hogar. Las buenas costumbres se aprenden en el hogar. | Casa de campo. Villa, quinta. Casa geminada. Casa adosada/pareada.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

escuta, chris

, é uma pena que tudo isso um dia vá acabar porque inevitavelmente vai acabar como todas as coisas acabam e você tão cara e tão necessária pra mim nesse momento vai se tornar apenas numa referência uma mulher que marcou certo período da minha vida e com o tempo vai ficar só seu nome porque nem os traços do seu rosto eu vou conseguir lembrar as coisas do mundo vão sendo entendidas por camadas do nosso pensamento até que as entendemos de forma tão definitiva que parece que sempre soubemos delas

uma pergunta. e uma resposta.

- Quanto tempo você quer viver?
- O suficiente pra não sofrer demais.

possível final 1

Sentados em volta da mesa. Uma vela acesa no meio. Luzes apagadas, janelas fechadas. Conversamos.

Ricardo diz que uma das coisas que ele mais gosta no teatro é o tanto que se troca com alguém em cena. Essa partilha de uma intimidade que abrange um outro pedaço da vida. Uma cumplicidade de uma outra ordem, que diz respeito a um outro tipo de relação. Não necessariamente melhor ou pior que a da vida ordinária, mas diferente.

Mariah levanta da mesa e vai buscar alguma coisa em sua bolsa. Ricardo não entende a atitude de Mariah, fica até um pouco ofendido, está falando sobre algo que lhe é muito caro, meu deus.

Mas ele não parou de falar. Completou que, nesse trabalho, esse mesmo da casa, ainda por cima estamos indo muito em nós mesmos, compartilhando muito do que é nosso. Se embaralha um pouco com a fala, Mariah voltou, ela tem uns papéis na mão, Ricardo termina dizendo que já sente uma coisa muito forte por todos ali.

Mariah lê. Apenas lê. E diz tudo que precisava ser dito. Diz que comunicação é sempre amor, não tem outro meio. E amor é sempre acompanhado por confiança, confiança de que o outro é capaz; porque o outro sou eu. Se o outro é capaz, eu também me torno capaz. Isto é o oposto de paternalismo, patriarcado, capitalismo. É a liberdade. Quando eu posso receber o outro, então estou comunicando; quando eu escuto o outro e sei que posso falar também. Estes momentos não acontecem todos os dias porque estamos inseridos em fortes estruturas de poder e opressão – estão ao nosso redor, por dentro, por toda parte. Vivemos num mundo que não quer que sejamos tocados porque se formos, nos tornaremos poderosos e capazes de mudar as coisas. Teatro político é portanto qualquer teatro voltado para esta noção básica de respeito aos seres humanos como iguais. E estar sempre em movimento porque nada está de fato completo e finalizado. O ator finge que finge. E este texto foi escrito para ser jogado no mar.

Não há mais nada a ser dito, pois. Apagamos a vela. Escuro.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Onde está o amor?

Lavando o rosto no banheiro. Enquanto isso, lá fora, responde-se a um guardanapo de papel com a pergunta "Onde está o amor?", condição para que entrem no banheiro. Quando todos entram, peço que alguém me leia o primeiro bilhete. Escovo os dentes durante a leitura.

"Eu venho tentando o silêncio. Tentando me distrair pra não me pegar pensando em você. Mas não é simples. Dá saudade. Das pernas juntas, dos beijos, das mãos nos cachos, do cheiro..." 

Esses dias me perguntaram, de supetão, num pedaço de guardanapo, onde estava o amor. Não soube o que responder, embora muito me tenha passado pela cabeça.

Sinto-me jogado de um lado para outro em meu desejo que, torpe, caminha trôpego, bêbado, numa tentativa risível de voltar pra casa.

Logo no dia seguinte à pergunta do guardanapo, recebi uma mensagem do Gabriel. Ele falava do seu silêncio, do meu, e das possíveis armadilhas que muitos silêncios juntos são capazes de engendrar, às vezes mesmo sem maldade aparente.

É difícil, muito difícil, caminhar sem tropeçar. Tanto quanto, pra mim, viver sem amar. Mas é só quando (suspensão) a gente caminha sem pensar - nas pedras fora do lugar, nas poças que respingam, nas formigas que inevitavelmente se mata, nos desvãos e nos desvios - é só quando a gente caminha sem pensar que não se corre o risco de cair. Que trabalho árduo é o de andar.

Eu acho que eu sinto saudade do futuro. De quando eu conseguir não pensar tanto.

Deus existe? Sim ou não?

E se lhe fosse comprovada a sua existência - ou mesmo sua não existência - isso mudaria seu comportamento no dia-a-dia?

Peço pra que alguém leia o segundo bilhete. Deixo o banheiro antes do fim da leitura.

"Sinto sua falta. De saber de você. De ver você evoluir. Sinto falta de muita coisa. Queria te lembrar disso, pra que a gente não caia em nenhuma armadilha do silêncio. Não quero jogo. Quero verdade, transparência e vontade. Então tá aqui a minha vontade de dizer o que sinto. Sinto falta."

apresentação Ricardo

Meu nome é Ricardo. Cabral. Cabral Pereira – mas é verdade é que Pereira é meu sobrenome renegado. Não sei, acho feio. Não gosto do som – Pereira. Nasci no dia 09 de abril de 1990, às quatro e vinte da manhã – e juro que foi quatro e vinte mesmo, pura ironia do destino. Sou brasileiro, homem e gay, vinte e quatro anos. Sou carioca mas nasci em Petrópolis. Petropolitano. Pouco antes do meu parto, minha mãe viajou para um antigo sítio da família, em Pedro do Rio. Ela já tinha feito o mesmo quando do nascimento da minha irmã mais velha e do irmão que nunca chagamos a conhecer. Queria que nascêssemos perto da natureza, no meio do mato e longe da cidade. O lugar depois foi vendido. Queria muito lembrar de lá.

Sou ator. E para poder ser ator, me desdobro nas aulas de espanhol e nos freelas de tradução, revisão e assessoria de imprensa. Faço qualquer coisa que der – mas aprendi que dignidade não se vende.

Sou de Áries, mas o elemento que menos tenho no meu mapa é fogo. A verdade é que sou um grande pisciano, com uma neca de fogo que me faz não ter medo de seguir em frente, por mais escuro que tudo pareça. Mas não tem jeito: sou da água do mar, lá do meio do oceano, onde tudo parece infinito demais, profundo demais, grande demais para que eu mesmo consiga... não sei.

Pensar em como me apresentar foi absolutamente desesperador. E sei que não me apresentei. O ponto é que é difícil dizer quem sou, porque olhando pra trás vejo quantas vezes já fui e não sou mais. As transformações da vida, as voltas em que ela nos leva, são fascinantes, mas também cansativas. As coisas nunca param, a roda sempre gira, e às vezes não tenho tempo nem mesmo de acostumar ao que virei e... já estou diferente de novo. Acho que é por isso que, olhando pro futuro, não sou desses que diz de boca cheia que quer viver cem anos. Não, é muita coisa. Não preciso de tanto. Não sei se aguento tanto. Viver dá muito trabalho.

domingo, 19 de outubro de 2014

Naquela mesa


"Naquela mesa", versão de Otto para a música composta por Sérgio Bittencourt

Transvendo


O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê o mundo.
É preciso tranver o mundo.
(Manoel de Barros)







"O Silêncio da Multidão", de Cidadão Instigado

Van Gogh

"O quarto", de Van Gogh


Salvador Dalí

Ilustração para o livro Les Chants de Maldoror, do conde de Lautréamont


Dormência. Mate-me. Dormir. Produzir. Não Produzir. Criar. Respeito. Respeito-me. As facas com que corto o tempo, MEU TEMPO, são as mesmas que cortam minha garganta fatigada de nada. Fatigada mesmo de tudo.
Ah, se meu tempo fosse meu e não seu.
(por Ricardo Cabral)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pinceladas

O quarto tem essa coisa sonolenta.

A saudade não é uma coleção de momentos, memórias, conversas...?

Solidão em movimento.
Dançar no meio de estranhos.

EMBALADO versus EMBALAGEM

Reação à gravura do Samuel

Dormência. Mate-me. Dormir. Produzir. Não produzir. Criar. Respeito. Respeito-me. As facas com que corto o tempo, MEU TEMPO, são as mesmas que cortam minha garganta fatigada de nada. Fatigada do mesmo de tudo. Ah, se meu tempo fosse meu e não seu.

Reação à música da Chris

Festa de família. É natal, talvez. É de noite. NÃO! Sou eu que fugi da família, fugi de casa, fugi de todo o mundo procurando todo o mundo. Sou eu buscando na solidão encontrar a mim e ao outro. Quem? Quando? Para. Vive. Vive, apenas. Rilke bem que me avisou que era para acostumar-se com a presença das perguntas, em vez de angustiar-se com a ausência das respostas. Era, disse ele, para admirar a beleza do não-saber, sem muito mais. Já não sei se foi exatamente isso o que ele disse, mas pelo menos foi assim que tudo aquilo se imprimiu em mim. Chega. Movimento, movimento, movimento. Barulho, barulho, barulho. Chega. A festa de família voltou. Tomo um gole de vinho, meio atordoado. Tudo passou muito rápido e agora me vejo outra vez aqui, sem saber exatamente por que. Chega.

Reação à pintura da Mariah

Van Gogh. Casa do Dudu. Cadeiras do Dudu. Silvia, segunda mãe. Eu me sentia - eu me sinto - à vontade para abrir a geladeira. Infância, riso, melhor amigo. Tempo. Diferença e estranheza. Superação da diferença. Distância. Distância com carinho. Um senso absurdo de estar à vontade nessa presença. Não preciso ser nada além do que já sou. Não preciso provar nada.

Amizade é escolha depois que a gente cresce. É preciso fazer esforço pra estar com o outro. Senão nossa vida maluca nos leva a tantas direções diferentes que o encontro se torna difícil. Depois raro. Depois nunca.

Um pequeno menino

Um pequeno menino estava deitado na banheira. Era o primeiro banho no qual, segundo um antigo desejo seu, nem a mãe nem a ama estavam presentes. A fim de atender à ordem da mãe, que vez por outra lhe gritava alguma coisa do quarto contíguo, ele se esfregara ligeiramente com a esponja; então se esticara e deliciava-se com a imobilidade na água quente. A chama do aquecedor a gás zunia regularmente e, nele, o fogo evanescente crepitava. No quarto contíguo estava tudo quieto já havia bastante tempo, talvez a mãe houvesse se afastado.

-- Kafka, F.

Muito barulho

Estou aqui sentado em meu quarto, o quartel general do barulho de toda a casa. Ouço baterem todas as portas, devido ao seu barulho, sou poupado apenas dos passos daqueles que caminham entre elas, ouço ainda a porta do fogão sendo fechada. O pai arromba as portas de meu quarto e o atravessa arrastando a camisola. No aquecedor do quarto contíguo, as brasas estalam, Valli pergunta da antecâmara, bradando palavra por palavra se o chapéu do pai já foi limpo, um ciciar, que me soa muito conhecido, destaca ainda mais o grito da voz que responde. A maçaneta da porta da frente é abaixada fazendo um barulho como uma garganta catarrenta, e a porta continua se abrindo com o canto de uma voz feminina e fecha-se finalmente com um tranco abafado, masculino, que soa como o mais desconsiderado. O pai saiu, agora se inicia o barulho mais suave, mais espargido, mais desesperançado, liderado pelas vozes dos dois canários. Mesmo antes eu já pensara nisso, com os canarinhos volta a me ocorrer se não poderia abrir uma pequena fresta da porta, entrar no quarto contíguo me esgueirando como uma cobra e pedir então, assim no chão, silêncio às minhas irmãs e sua ama.

-- Kafka, F.